Uso de álcool na universidade: um problema, muitas perspectivas

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Por Arthur Guerra de Andrade

A entrada na universidade é um marco importantíssimo na vida dos jovens e suas famílias, e representa o início de nova fase, com esperada evolução nos âmbitos pessoal e profissional. No Brasil, é frequente que os chamados “calouros” entrem na faculdade aos 18 anos, segundo o Censo da Educação Superior 2012, do INEP, do Ministério da Educação. Em um cenário repleto de mudanças, curiosidades e expectativas, ao se deparar com novos desafios e novos colegas de turma, além de grupos já formados de outros anos, o aluno tende a procurar ser socialmente aceito e viver intensamente as ocasiões para aproveitar esta fase tão promissora. Aqui também começa a ser desenhado um possível risco para uma trajetória de abuso de álcool e suas consequências.

Não são raras as festas universitárias nas quais o consumo de bebidas alcoólicas em altas quantidades atinge alguns alunos, felizmente uma minoria. O contexto em que se encontram – expostos às chamadas pressões de pares – contribui para agravar a situação. Hoje sabemos que pressões de grupo são um importante fator de risco, em que o próprio comportamento do grupo é capaz de influenciar o jovem – ou seja, após as primeiras doses, se o seu grupo continua bebendo, ele tenderá a fazer o mesmo, perdendo sua capacidade de controle e apreciação do momento.

Ainda, nas confraternizações e comemorações alguns desses jovens beberão até ficar embriagados. Este pode passar a ser um condicionamento implícito, e, assim, tornam a beber de forma exagerada acreditando que tal hábito simplesmente faz parte da experiência universitária, como uma norma associada a um contexto de alegria, bons relacionamentos e êxitos. Mesmo quando sofrem prejuízos decorrentes desse beber excessivo, como a frequente “ressaca”, ou quando “dão PT” (de perda total, quando passam mal e desmaiam), alguns acham legal ou até divertido, e somente quando uma consequência trágica acontece, como a perda de um colega ou casos de violência sexual associados ao uso de álcool, surge a reflexão e crítica sobre este comportamento.

Diante do ambiente onde o excesso pode ser a norma, é preciso limites. Não adianta esperar que a mudança venha somente a partir dos alunos, essa é uma responsabilidade que deve ser compartilhada entre toda sociedade. E o ponto de partida desse desafio é o maior controle sobre as festas que são organizadas. Mais uma vez, não podemos esperar que universitários conheçam e implementem as melhores práticas de prevenção do uso nocivo de álcool – como a proibição de festas “open bar”, o treinamento de funcionários para não servir bebidas alcoólicas a pessoas embriagadas, entre outras. Isso é um papel que precisamos exercer, orientando e supervisionando e, principalmente, dando o exemplo.

As consequências do consumo excessivo de álcool abrangem desde queda no desempenho acadêmico, perda de vivências sociais e cognitivas apropriadas, relações sexuais sem proteção ou ainda indesejadas, até a morte, seja por acidentes, lesões, ou mesmo coma alcoólico – grau tão severo de intoxicação que afeta de forma fatal o funcionamento de todo o corpo e do cérebro.  Especialmente entre os jovens, chamo a atenção para um problema frequente e associado a repercussões graves: o beber pesado episódico (consumo de grande quantidade de álcool em curto espaço de tempo). Ao analisarmos dados do I Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras, verificamos que 25% dos estudantes relataram tal padrão em pelo menos uma ocasião no mês anterior à entrevista, ou seja, um em cada quatro estudantes está frequentemente exposto a comportamentos de risco e outros prejuízos.

Alerto ainda que a coleta de dados científicos é ferramenta de extrema relevância para que novas pesquisas e intervenções sejam elaboradas, e é preciso ter cuidado com sua interpretação. Por exemplo, segundo dados do DataSUS, do Ministério da Saúde, 242 mortes foram atreladas ao diagnóstico de transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool para a faixa etária de 20 a 29 anos no ano de 2012. Se verificarmos a divisão de tais óbitos pelo número de horas em um ano, teríamos o equivalente a 1 morte a cada 36 horas – matematicamente falando. Por outro lado, considerando o total de 56.536 mortes contabilizadas para esta faixa no mesmo período, seria o mesmo que dizer que aproximadamente 0,4% destas foram associadas ao álcool. Afirmar tais extrapolações refletiria certo reducionismo frente à complexidade do problema, e perde-se a oportunidade de percebermos por quais mecanismos o uso de álcool se tornou nocivo ao ponto de matar.

Muitos leitores certamente passaram por experiências positivas com uso de álcool na faculdade. De fato, o consumo social, moderado de bebidas alcoólicas pode sim fazer parte da vida de adultos, mas reafirmo a importância de lutarmos contra o uso de álcool por menores de idade e o uso excessivo em geral. É um desafio que precisa ser enfrentado e priorizado por toda sociedade e para o qual nós, educadores, não pouparemos esforços. Precisamos ser intolerantes com notícias como a recente morte do estudante em Bauru, combater as ocasiões permissivas para tal nível de embriaguez como as festas “open bar”, ensinar os adolescentes a enfrentarem os estresses da vida de forma saudável e fazê-los perceber que estão atentando contra sua própria saúde e que verão os prejuízos futuramente, de uma forma ou de outra. A morte de um universitário que celebra sua vida é a morte do futuro. É o contrasenso do que precisamos buscar se quisermos um país com cidadãos plenos e produtivos, e com saúde.

*Arthur Guerra de Andrade é psiquiatra e especialista em dependência química, Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Professor Titular de Psiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de Medicina do ABC, Presidente do International Council on Alcohol and Addictions (ICAA) e Presidente Executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA).