Estudo divulgado pelo CISA revela que o consumo moderado de álcool pode trazer benefícios cardiovasculares

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Artigo de revisão publicado pela revista científica Journal of Molecular and Cellular Cardiology e divulgado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – CISA, organização não governamental que se destaca como uma das principais fontes no País sobre o tema, mostra que o uso moderado de álcool pode beneficiar o sistema cardiovascular independente do tipo de bebida, conforme demonstrado por estudos de associações epidemiológicas e análise de mecanismos celulares.

O consumo pesado do álcool (de 3-4 ou mais doses* por dia) está associado a prejuízos psicossociais e físicos, como infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC). Por outro lado, o uso moderado (de 1-2 doses por dia) pode estar associado a benefícios cardiovasculares. Segundo estudos epidemiológicos, o uso regular de álcool em menores quantidades pode reduzir os riscos de isquemia(quando o fluxo sanguíneo diminui, é interrompido ou é inadequado para as necessidades do músculo cardíaco), mesmo na presença de fatores de risco coexistentes.  Os benefícios do uso moderado de álcool também foram identificados por meio de pesquisas focadas no desenvolvimento de tratamentos para diminuir as lesões de isquemia-reperfusão (I/R) – termo utilizado para descrever as alterações, funcionais e estruturais, que se tornam aparentes durante o restabelecimento do fluxo sanguíneo após um período de isquemia.

Diante desse panorama, pesquisadores revisaram a literatura com os seguintes objetivos: verificar evidências sobre a associação do uso de álcool e redução de riscos cardiovasculares adversos; e analisar possíveis mecanismos que sustentam os efeitos protetores da ingestão leve e moderada de álcool.

Os primeiros estudos sobre a associação entre o consumo moderado de álcool e a proteção cardiovascular destacam especialmente o vinho tinto, devido à presença de polifenóis, com ações antioxidantes. Entretanto, até o momento, não existe um consenso estabelecido na literatura científica de que o vinho tinto possui mais funções cardioprotetoras que outros tipos de bebidas alcoólicas.

Vários estudos analisados por essa pesquisa apontaram o padrão de “curva em J”, com a taxa de risco cardiovascular crescente conforme o aumento gradual da ingestão de álcool; porém, menor para bebedores leves em comparação com abstêmios.

Nota-se também que o consumo regular de até duas doses de álcool por dia foi associado à redução significativa de infarto do miocárdio entre adultos, mesmo em populações de alto risco, como fumantes, diabéticos, obesos, dislipidêmicos (quantidades de colesterol acima do normal), entre outros. No entanto, é importante ressaltar as variações de acordo com o gênero; por exemplo, o consumo diário de duas ou mais doses de bebidas alcoólicas para mulheres estava associado ao aumento da mortalidade; para homens, este risco é observado para três ou mais doses. Entre os indivíduos que possuem comportamentos saudáveis, por exemplo, que praticam exercícios físicos, não fumantes, com dietas alimentares equilibradas, e que fazem uso moderado de álcool, o risco de infarto do miocárdio pode diminuir de 40% a 50%.

Em relação aos mecanismos cardioprotetores induzidos pela ingestão de álcool, estudos mostram ação principalmente sobre as lipoproteínas, coagulação, plaquetas, estresse oxidativo, sensibilidade à insulina e função endotelial (camada íntima do vaso sanguíneo).

O consumo moderado tem efeitos diretos sobre os cardiomiócitos (fibra muscular cardíaca), bem como efeitos vasculares e extra-cardíacos, que influenciam fortemente o risco de doença cardíaca coronária.

Além disso, o consumo regular de baixas doses de álcool também pode trazer benefícios à hipertensão e ao diabetes, pela diminuição do estresse oxidativo, aumento da sensibilidade a insulina e efeito vasodilatador endotelial. Apesar dos mecanismos desses efeitos ainda não serem claros, o primeiro caso está associado à diminuição da pressão arterial; no segundo, o álcool auxilia na sensibilidade da insulina e também na redução do risco de desenvolvimento de diabetes tipo II.

Em síntese, a análise aponta evidências de que a exposição prévia ao álcool em níveis leves a moderados pode ter efeitos de proteção cardiovascular. A investigação e sinalização das vias envolvidas na ingestão dessa substância podem nortear tratamentos para evitar prejuízos decorrentes da I/R, mas que ao mesmo tempo diminuam os impactos negativos psicossociais e patológicos das bebidas alcoólicas.

* Uma dose-padrão de bebida alcoólica (350 ml de cerveja, 150 ml de vinho ou 50 ml de destilado) contém, aproximadamente, 10-14 g de álcool puro.

Título do estudo: Moderate ethanol ingestion and cardiovascular protection: From epidemiologic associations to cellular mechanisms.

Autores: Maike Krenz, Ronald J. Korthuis.

Fonte: Journal of Molecular and Cellular Cardiology.