Consumo nocivo de álcool: um problema complexo e de diversos responsáveis

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*Por Arthur Guerra de Andrade

O abuso de bebidas alcoólicas é tema de grande relevância para a saúde pública. Está associado a 60 tipos de doenças e lesões, incluindo prejuízos agudos (acidentes de trânsito, violência, sexo desprotegido) e crônicos (doenças cardíacas, hepáticas, abuso e dependência alcoólica). Assim, as consequências deste uso não atingem apenas os usuários, mas também suas famílias e a sociedade. 

No Brasil, um levantamento nacional mostrou que 75% da população entre 12 e 65 anos já beberam alguma vez na vida. Ademais, o estudo “São Paulo Megacity” avaliou 5.037 adultos da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). A pesquisa faz parte do World Mental Health Survey Initiative, um consórcio conduzido em 28 países sob os auspícios da Organização Mundial da Saúde. A taxa de dependência alcoólica encontrada na RMSP (3,3%) foi menor do que apontavam estudos anteriores. Porém, 9,4% apresentaram diagnóstico de abuso do álcool, o equivalente a 1,8 milhões de pessoas com problemas de ordem social, no trabalho, ou familiar, decorrentes do uso indevido desta substância.

Outros estudos recentes também mostram dados alarmantes, principalmente com relação aos nossos jovens. Eles começam a beber cedo e muitos bebem abusivamente. Chamo a atenção para um grupo especial: os universitários, foco de estudo que realizamos recentemente. No I Levantamento Nacional sobre Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras, observamos que mais de 85% dos jovens entrevistados já fizeram uso de álcool na vida, sendo que 50% dos universitários beberam antes de completar 16 anos.

O abuso do álcool gera gastos públicos para o sistema de saúde, que fica sobrecarregado pelo atendimento às vítimas de acidentes no trânsito e aos pacientes com problemas físicos e psiquiátricos decorrentes deste uso. Além disso, familiares são atingidos física e psicologicamente por atos violentos e a ausência afetiva e produtiva do usuário. Instituições sociais sofrem com o absenteísmo e perda da produtividade, sem contar os gastos dos processos judiciais.

Em nosso país, este cenário pode ser atribuído a vários fatores: o hábito de beber grandes quantidades em pouco tempo; o consumo do álcool inicia-se precocemente, por vezes oferecido pelos próprios familiares; e a venda de bebidas alcoólicas para menores de idade é banalizada. Apesar da complexidade deste tema, creio ser fundamental o trabalho preventivo, uma vez que as consequências negativas do uso de álcool podem ser evitadas por meio de um trabalho compartilhado entre diversos setores da sociedade, como profissionais da área da saúde, familiares, educadores, políticos e a indústria de bebidas.

 

*Prof. Dr. Arthur Guerra de Andrade é psiquiatra e especialista em dependência química, Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Professor Titular de Psiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de Medicina do ABC e Presidente Executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA).