CISA divulga estudo sobre fatores associados à reincidência do beber e dirigir no Sul do Brasil

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Homens e faixas etárias mais velhas são os que mais apresentam recorrência de violações de trânsito por ingestão de álcool no estado do Rio Grande do Sul

         Estudo divulgado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – CISA, organização não governamental que se destaca como uma das principais fontes no país sobre o tema, apresenta quais fatores levam a reincidência da perigosa mistura de álcool e direção no estado do Rio Grande do Sul.

Diversos estudos divulgados nas últimas décadas advertiram e orientaram a população sobre o perigo de beber e dirigir,  indicando como a combinação pode resultar em trágicos fins, além de aumentar os riscos de acidentes, lesões graves e mortalidade. Já é bem estabelecido que o consumo de álcool prejudica habilidades como reflexo, percepção de velocidade e obstáculos, acuidade visual, redução da capacidade de controlar e conduzir o veículo. Ainda, o julgamento pode ser  prejudicado e  causar comportamento mais impulsivo ou agressivo.

         Estima-se que para cada 2 dg/L de álcool presente no sangue a probabilidade do motorista se envolver em um acidente fatal duplica e se a concentração de álcool no sangue atinge 5-7 dg/L o risco passa a ser 4 a 10 vezes maior. Ainda, condutores envolvidos em acidentes e com alta concentração de álcool no sangue (10 dg/L), apresentam 90% de chance de serem os responsáveis pelo ocorrido.

         No Brasil, acidentes de trânsito configuram um grave problema, sendo a segunda causa de mortes violentas entre jovens, registrando 22,4 casos de mortes para cada 100 mil habitantes. Por esse motivo, há 12 anos, uma série de mudanças vêm ocorrendo nas leis de trânsito, com ênfase nas restrições do beber e dirigir. Nesse sentido, medidas mais rigorosas vêm sendo adotadas, como suspensão da habilitação por 12 meses, multa elevada e necessidade de curso de reciclagem para os infratores, além de ser considerado crime se o motorista for flagrado embriagado com concentração de álcool no sangue superior a 6 dg/L. Outra medida implementada foi a proibição da venda de bebidas alcoólicas nas estradas, visto que estudo anterior¹ indicou que 4,8% dos condutores em estradas nacionais dirigiram após consumo do álcool.

         Foi evidenciado um grupo de condutores mais propensos para o beber e dirigir, que foram reincidentes nessa infração, composto por homens jovens de 18 a 29 anos. O objetivo do estudo foi explorar este comportamento de risco identificado, avaliando que variáveis estão associadas à recorrência em infrações de trânsito dirigir sobre influência de álcool no estado do Rio Grande do Sul.

         Para tal, foram incluídos dados de mais de 3 milhões de habilitações de motoristas emitidas pelo Detran-RS² entre janeiro de 2009 e dezembro de 2010. O comportamento de beber e dirigir foi analisado, considerando reincidentes os indivíduos flagrados dirigindo sob influência de álcool mais de uma vez nos últimos 24 meses. Informações, como idade, gênero, tipo de veículo conduzido no ato da infração, tempo de habilitação, escolaridade, resultado do teste psicotécnico e categoria da habilitação também foram coletadas. Os subgrupos reincidentes e não reincidentes foram comparados.

         Os resultados indicaram que 0,3% foram autuados por dirigir sob efeito de álcool (12.204 motoristas; uma média de 3 para cada 1.000 motoristas), dos quais 4,4% eram reincidentes. As categorias de habilitação A (moto), E (caminhões pesado) e AE (combinação das duas) tiveram menos reincidentes. Já os motoristas de ônibus e micro-ônibus cometeram infrações com menor frequência, provavelmente pelo controle realizado pelos empregadores – já foi indicado em estudos anteriores que motoristas brasileiros profissionais são menos autuados pelo beber e dirigir em relação aos motoristas não profissionais, além de estarem sujeitos a maior fiscalização devido ao maior tempo conduzindo veículos pelas vias.

         Constatou-se, portanto, de forma surpreendente, que os homens representaram 98% dos infratores reincidentes e 97% dos não reincidentes. Esse resultado indica que os homens estão menos preocupados com esse comportamento de risco quando comparados às mulheres, visto que mesmo que elas representem aproximadamente 25% dos motoristas, poucas foram autuadas dirigindo após consumo de álcool. Os resultados de um estudo Israelense realizado com motoristas homens e mulheres indicou que homens transgridem as leis de trânsito intencionalmente, por exemplo, com excesso de velocidade, enquanto as mulheres fazem mais por engano, mostrando maior percepção aos possíveis perigos das infrações de trânsito.

         No presente estudo, os reincidentes foram mais prevalentes no grupo com mais de 12 anos de habilitação e mais velhos, na faixa entre 41 e 50 anos. Sugere-se como hipóteses para explicar tal resultado que a formação desses condutores ocorreu com leis antigas, sem ações educativas e com fatores culturais, em que beber e dirigir era mais aceito pela sociedade, além de  maior independência financeira reduzindo o impacto das multas.

         Como conclusão os autores indicam que uma vez conhecido o perfil dos reincidentes na infração de beber e dirigir, é possível estabelecer políticas educativas e preventivas específicas e direcionadas a esse público, mas recorda que o levantamento de infrações foi realizado em apenas um dos 27 estados brasileiros. Ainda, os índices de reincidência oficiais que foram encontrados estão abaixo das referências internacionais de outros estudos, o que indica que, provavelmente, o Brasil não está fiscalizando adequadamente o cumprimento da lei. Por conta dessa sensação de impunidade no país, há um estímulo do comportamento inadequado de dirigir sob influência de álcool.

1. Título: Predictors of positive blood alcohol concentration in a sample of Brazilian drivers. Autores: Pechansky F, Duarte Pdo C, De Boni R, Leukefeld CG, von Diemen L and Bumaguin DB. Fonte: Rev Bras Psiquiatr., 2012.

2. O DETRAN-RS é o Departamento Estadual de Trânsito que faz parte do Sistema Nacional de Trânsito (SNT) e é responsável pelas atividades de trânsito estabelecidas pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e por normatização própria. São competências do DETRAN promover a educação para o trânsito, planejar, coordenar, executar e controlar ações relacionadas à habilitação de condutores, documentação e serviços para veículos. Além disso, o órgão produz estatísticas de trânsito e gerencia a autuação e a arrecadação de multas. O objetivo do órgão é realizar todas essas atividades com qualidade, eficiência e transparência, contribuindo para a defesa da vida e da cidadania.

Título do estudo: Factors associated with recurrence of alcohol-related traffic violations in southern Brazil.

Autores: Aurinez R. Schmitz, José R. Goldim, Luciano S. P. Guimarães, Fernanda M. Lopes, Felix Kessler, Tanara Sousa, Veralice M. Gonçalves and Flavio Pechansky.

Fonte: Revista Brasileira de Psiquiatria, 2014.