CISA divulga estudo inovador sobre a utilização de aplicativo em smartphone para tratamento do alcoolismo

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Ensaio clínico randomizado mostra resultados promissores quanto ao uso da tecnologia na recuperação de pacientes dependentes do álcool

 O Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – CISA, organização não governamental que se destaca como uma das principais fontes no país sobre o tema, divulga estudo que apresenta resultados promissores em relação ao uso da tecnologia no tratamento de pacientes em recuperação da dependência alcoólica, por meio de um aplicativo.

A dependência de uso do álcool é uma doença psiquiátrica crônica, com evolução progressiva de sintomas psicológicos e comportamentais. Assim como outras doenças, como a hipertensão arterial, a dependência alcoólica pode apresentar piora dos sintomas ao longo do acompanhamento, altas taxas de recaída, cuja gravidade é variável. Embora existam evidências para o tratamento da dependência em períodos determinados, não há estratégias claras definidas para assistência a longo prazo.

Diante disso, a tecnologia oferece meios de prover informações, monitoramento, comunicação e suporte constante, incluindo a possibilidade de fazer com que paciente e seu conselheiro estejam em contato direto. Comparado ao método tradicional, o atendimento pode ser personalizado, com menos custos e recursos humanos, além de estar disponível em situações emergenciais.

O estudo teve como objetivo avaliar a eficácia de um aplicativo para smartphone, desenvolvido para reduzir a chance e a gravidade de recaídas, quando oferecido a pacientes com dependência de álcool, associado ao tratamento convencional.

Para realização da pesquisa foram recrutados 349 pacientes dependentes de álcool, de três instituições norte-americanas, após terem passado por programa de residência terapêutica (método comparável a uma internação). As instituições adotavam procedimentos semelhantes, com entrevista motivacional, psicoeducacão, grupos de terapia cognitivo-comportamental e de autoajuda (considerado tratamento usual).

Os pacientes foram separados em dois grupos: o grupo controle, que recebeu o tratamento usual ao longo de um ano, e o grupo experimental, que além do tratamento usual recebeu um celular com o aplicativo instalado contendo conteúdos fixos (por exemplo, vídeos de relaxamento para momentos de fissura) e interativos (por exemplo, “botão do pânico” para quando se sentissem em risco e/ou a emissão de alertas ao se aproximarem de locais de alto risco), capazes de proporcionar o acesso a algum conselheiro previamente escolhido diante de situações emergenciais. Os dois grupos responderam questões específicas sobre o comportamento de beber nos últimos 30 dias, nos 4, 8 e 12 meses de tratamento após deixarem o programa de residência terapêutica.

Os participantes tinham, em média, 38 anos, a maioria de caucasianos (80%), homens (61%), desempregados (79%) e mais da metade usava ou abusava de outras substâncias além do álcool. Observou-se que 72% do grupo experimental apertaram o botão de pânico ao menos uma vez durante os oito meses de intervenção.

Segundo os resultados, houve redução do número de dias de “beber de risco” (consumo igual ou maior que 4 doses* de álcool em 2 horas) nos pacientes do grupo experimental em comparação ao grupo controle (aproximadamente 1,5 versus 3 dias, respectivamente). O número de páginas visitadas e a quantidade de dias de uso do aplicativo foram indicadores da quantidade de dias de “beber de risco”. Além disso, o grupo experimental foi ligeiramente mais propenso a manter abstinência.

O estudo constatou que o uso de aplicativos em smartphones, direcionados ao acompanhamento de pacientes com dependência de álcool, pode oferecer benefícios significativos, considerando o problema dentro de sua cronicidade, além de apresentar melhor custo-benefício que as intervenções convencionais. Como limitações do estudo, destaca-se a utilização de autorrelato dos pacientes para medir os desfechos quanto ao uso de álcool, sem exames capazes de checar a veracidade das respostas. Além disso, adotou-se para as avaliações o critério de consumo nos últimos 30 dias, podendo subestimar ou superestimar o comportamento do beber uma vez que só esse período foi considerado.

*Foi considerada uma dose de bebida alcoólica como o equivalente a 14g de álcool puro (aproximadamente 350ml de cerveja, 140ml de vinho e 40ml de destilados).

 Título do estudo: A smartphone application to support recovery from alcoholism: a randomized clinical trial.

Autores: Gustafson DH1, McTavish FM1, Chih MY1, Atwood AK1, Johnson RA1, Boyle MG1, Levy MS2, Driscoll H3, Chisholm SM4, Dillenburg L1, Isham A1, Shah D5.

Fonte: JAMA Psychiatry, 2014.