CISA apresenta dados esclarecedores sobre a relação entre consumo moderado de álcool e o risco para desenvolvimento de câncer

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedIn

Estudo americano discute a presença simultânea ou não do tabagismo e as diferenças entre homens e mulheres, alertando especialmente para o aumento do risco de câncer de mama nas mulheres

 

O Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – CISA, uma das principais fontes no país em relação ao binômio Saúde e Álcool, divulga e analisa estudo americano publicado pelo British Medical Journal (BMJ). A pesquisa avaliou associações entre o risco para o desenvolvimento de câncer e os níveis de consumo moderado de álcool. Foram consideradas as diferenças entre homens e mulheres, e comparados indivíduos que nunca fumaram com aqueles que fumam ou já fumaram. A análise dos dados se baseou em materiais de dois grandes grupos com mais de 88 mil mulheres e 47 mil homens que foram acompanhados por mais de 30 anos.

Em outras pesquisas científicas, o consumo excessivo de álcool já tinha sido relacionado ao maior risco de desenvolvimento de alguns tipos de câncer – tipos de câncer relacionados ao álcool, traduzido do inglês “alcohol-related cancers” -, como de cavidade oral, faringe, laringe, fígado, esôfago, mama e colorretal. Em geral, quanto maior a quantidade de álcool ingerida, maior é o risco. Já a relação entre tal risco e o consumo moderado de álcool, definido como até uma dose* diária para mulheres e duas para homens, ainda não é muito clara, como ocorre nas doenças cardíacas e diabetes, nas quais o consumo leve a moderado já demonstrou ter efeito protetor, enquanto o beber mais intenso pode ter relação inversa.

Em linhas gerais, com relação ao consumo moderado de álcool foi encontrada uma tendência de discreto aumento na probabilidade do surgimento de câncer, que ocorre com níveis de consumo menores entre mulheres. Além disso, o estudo evidencia que o tabagismo atua como fator de risco bem mais intenso do que o consumo de álcool no que se refere à ocorrência da doença.

O consumidor mais pesado de álcool (consumo total equivalente ao que seria 30 g ou mais, ou cerca de 3 ou mais doses por dia) apresentou aumento no risco total de câncer, sendo mais expressivo entre quem já fumou (ou fuma) que entre não fumantes (que nunca fumaram). Quando homens e mulheres não fumantes foram vistos separadamente, não houve aumento do risco entre homens bebedores moderados. Entretanto, o consumo diário de álcool entre mulheres, mesmo que moderado, foi associado a maior risco de câncer, principalmente de mama.

Os autores também chamam a atenção para a influência de fatores genéticos, isto é, em famílias que possuem indivíduos com câncer, há risco mais elevado para o desenvolvimento da doença quando há consumo de álcool. Por exemplo, o risco de câncer colorretal é maior com o uso de álcool em indivíduos com histórico familiar positivo para a doença e, dessa forma, a predisposição genética deve ser considerada ao optar por restrição ou não ao consumo de álcool.

Como os resultados foram semelhantes para diferentes tipos de bebida – cerveja, vinho ou destilados, os autores concluíram que é o próprio etanol presente na bebida, e não outros componentes, o responsável pela associação com o câncer. É provável que o produto de metabolização do etanol (acetaldeído) seja o principal responsável, mas é possível que o próprio etanol também tenha algum tipo de efeito diretamente carcinogênico. Veja mais em http://www.cisa.org.br/artigo/7/uso-alcool-desenvolvimento-cancer-em-individuos.php. Da mesma forma, os resultados de análises estatísticas não demonstraram haver influência do padrão de consumo, isto é, não houve diferença entre os indivíduos que concentram ou não seu consumo total em menos ocasiões, com ingestão de maior número de doses, tendo sido encontrado como fator associado a quantidade média total consumida.

Como conclusão, os autores destacam que o consumo moderado está associado minimamente ao maior risco de câncer em geral, mas para as mulheres, mesmo as que nunca fumaram, a ameaça para câncer do tipo relacionado com o álcool, especialmente o de mama, aumenta com a ingestão diária de álcool a partir de quantidade equivalente a uma dose de bebida alcoólica.

 

*A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece que uma unidade de bebida ou dose padrão contém aproximadamente de 10 g a 12 g de álcool puro, o equivalente a uma lata de cerveja (330 ml) ou uma dose de destilados (30 ml) ou ainda a uma taça de vinho (100 ml).

 

Título do estudo: Light to moderate intake of alcohol, drinking patterns, and
risk of cancer: results from two prospective US cohort studies

Autores: Yin Cao, Walter C Willett, Eric B Rimm, Meir J Stampfer, Edward L Giovannucci.

Fonte: British Medical Journal (BMJ), 2015.