Arquivos mensais: dezembro 2015

Estudo divulgado pelo CISA revela efeitos do beber pesado de álcool no sistema imunológico

Estudo alerta que um único episódio de intoxicação alcoólica já exerce efeitos sobre as defesas do organismo

 

O Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – CISA, uma das principais fontes no país em relação ao binômio Saúde e Álcool, divulga estudo publicado pela Revista Alcohol sobre os efeitos agudos que o consumo excessivo de álcool pode exercer no sistema imunológico.

O uso de álcool, especificamente quando leva ao estado de embriaguez, foi associado a mais de 30% dos casos de traumas físicos. Entre as vítimas atendidas nas unidades de emergência com esse diagnóstico, verificou-se que há maior risco para complicações, como doenças infecciosas e resposta inflamatória grave, o que pode implicar maior mortalidade.

Outros estudos já demonstraram que a intoxicação alcoólica exerce efeitos imunomoduladores – agentes do mecanismo de defesa podem ter sua atividade alterada (aumentada ou reduzida), modificando o curso das doenças – com início em algumas horas a dias após a ingestão, quando o álcool no sangue já não é mais detectável. Entretanto, os efeitos imunomoduladores precoces do álcool no sangue ainda não são bem compreendidos.

Com o objetivo de esclarecer essa questão, o estudo recrutou 15 voluntários saudáveis, sem histórico de problemas por uso de álcool, que mantiveram abstinência de álcool, cafeína e nicotina por ao menos 72 horas antes do teste. No experimento, o álcool foi consumido em quantidade necessária para atingir concentração alveolar – quando concentra vapor nos pulmões –, igual ou superior a 0,1% (medido por bafômetro), com repetições dessa medição a cada 30 minutos. Para verificar a correlação da medida alveolar com a concentração de álcool no sangue, foram coletadas amostras sanguíneas após 20 minutos, duas e cinco horas a partir do momento em que a concentração alveolar atingiu 0,1%. Todos os participantes atingiram pico de concentração de álcool no sangue entre 20 minutos e duas horas, em valor superior a 100 mg/dL (suficiente para haver embriaguez).

A partir do sangue, foram analisadas células do sistema imunológico (monócitos, leucócitos e linfócitos), quantitativa e qualitativamente, e também a responsividade de citocinas (moléculas envolvidas na modulação das respostas imunológicas), isto é, se a produção de citocinas, diante de estímulos previamente estipulados, foi alterada ou não.

Os resultados indicaram a ocorrência de estado pró-inflamatório precoce, aos 20 minutos, caracterizado por aumento no número de leucócitos circulantes e resposta inflamatória na produção de citocinas. Já entre duas e cinco horas após a ingestão, ocorreu estado anti-inflamatório, com diminuição e alteração dos tipos de leucócitos circulantes e resposta anti-inflamatória na produção de citocinas.

Como conclusão, os autores alertam que mesmo um único episódio de intoxicação alcoólica exerce efeitos sobre o sistema imunológico, causando alteração bifásica, isto é, inicialmente estado pró-inflamatório, seguido de estado anti-inflamatório. Os impactos clínicos dessas alterações não são totalmente conhecidos, mas para o caso de vítimas de traumas e acidentes com elevada concentração de álcool no sangue, é importante ressaltar que haverá maior exposição aos ativadores de inflamação do próprio organismo e aos agentes infecciosos, o que representa risco adicional à saúde.

 

Título do estudo: Acute immunomodulatory effects of binge alcohol ingestion.

Autores: Afshara M, Richards S, Mann D, Cross A, Smith GB, Netzer G, Kovacs E, Hasday J.

Fonte: Alcohol. 2015 Feb;49(1):57-64